Microgeração e ondas valem quase três “Autoeuropas”

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Hoje, no Público, um artigo em Creative Commons. E o tema também é bom. Link original.

Por Miguel Pinto e José Rui Felizardo.

Portugal encontra-se entre os países pioneiros na investigação em energias renováveis. Contudo, e apesar do conhecimento acumulado nas instituições de investigação, a indústria nacional tem-se mantido afastada desta área de negócio, pelo que estas tecnologias não têm sido integradas em produtos finais e, consequentemente, valorizadas comercialmente. Como resultado, o nosso país importa tecnologia integrada nos equipamentos que adquire a empresas estrangeiras.
A energia eólica constitui um bom exemplo desta situação. Apesar de existirem entidades nacionais a investigar nesta área desde há muito – a primeira turbina eólica instalada em Portugal data de 1984 – não existem produtores portugueses de equipamentos para produção de electricidade a partir do vento.

No momento certo
Este tipo de situações ocorre, segundo Dani Rodrik, professor em Harvard, porque existem falhas de mercado: tanto a informação como a coordenação dos agentes económicos são insuficientes, pelo que são necessárias acções públicas que enquadrem a iniciativa privada.

A insuficiente informação dos agentes económicos está associada ao esforço inerente à descoberta da estrutura de custos de novas actividades. Isto significa que será o primeiro entrante a descobrir se uma nova actividade é ou não lucrativa; se não for, terá de assumir o custo sem qualquer recompensa; se for, assume o custo, mas deverá partilhar os benefícios com os que se lhe seguirem. Os incentivos do mercado para a entrada em novas áreas são, assim, reduzidos, afectando mais intensamente as empresas de menor dimensão.

A insuficiência de coordenação significa que existe a necessidade de uma actuação concertada de múltiplos agentes. As falhas de coordenação ocorrem em situações em que o êxito de um investimento depende da realização de outros. Não faz sentido, por exemplo, construir uma central eólica num local isolado se não houver um investimento simultâneo na expansão da rede eléctrica de forma a permitir que a electricidade produzida possa chegar aos consumidores. Contudo, o mercado nem sempre é capaz de coordenar os investimentos necessários.

O enquadramento da iniciativa privada reveste-se de maior importância no caso de actividades emergentes. Por um lado, não existem mercados, procedimentos, normas legais, standards ou infra-estruturas estabelecidos. Por outro, a entrada em áreas tecnológicas numa fase avançada do seu ciclo de vida não permite integrar a tecnologia desenvolvida em produtos finais e, por conseguinte, a sua valorização comercial.

As recentes medidas para a criação de uma fileira industrial associada à instalação de centrais eólicas constituem um bom exemplo: permitem uma maior apropriação de valor que a situação anterior e são, nesse sentido, positivas para a economia nacional; porém, e como a tecnologia é dominada por agentes externos, as empresas nacionais apenas se podem posicionar como fornecedoras de componentes e não como integradoras finais, como teria sido possível se medidas deste tipo tivessem sido tomadas há duas décadas.

Um espaço de oportunidade
O novo contexto energético global veio colocar ênfase na necessidade de aumentar o peso das fontes de energia renovável na produção de electricidade, pelo que se trata de áreas que apresentam um elevado potencial de crescimento. Portugal reúne condições para aproveitar este imenso espaço de oportunidade associado às renováveis por duas grandes razões. Uma é o facto de existirem no nosso país entidades com um percurso de investigação em áreas como a energia das ondas e a microgeração. Outra é porque o volume de investimento previsível pode constituir uma plataforma de lançamento para as empresas nacionais.

Com efeito, a energia das ondas é hoje uma área tecnológica emergente na qual o nosso país detém competências únicas a nível mundial. Entidades como o Instituto Superior Técnico e o INETI desenvolvem actividades de investigação há mais de duas décadas e encontram-se envolvidas nos principais projectos que têm decorrido na Europa. Simultaneamente, Portugal tem acolhido várias instalações-piloto de demonstração de tecnologias. A microgeração é igualmente uma área tecnológica emergente, estando em curso projectos de investigação em entidades como o INETI.

Paralelamente, o investimento potencial em energia das ondas e microgeração aproxima-se, só em Portugal, dos 5500 milhões de euros. Ainda que de difícil comparação, este montante ultrapassa os de muitos outros grandes projectos desenvolvidos em Portugal nos últimos anos. Existe, portanto, um instrumento que permite promover o envolvimento das empresas.

Portugal tem, assim, a possibilidade de se posicionar entre os líderes mundiais em energia das ondas e em microgeração e explorar o espaço de oportunidade associado às energias renováveis, passando de importador de tecnologia a integrador de tecnologia em produtos próprios.

A exploração deste espaço de oportunidade está, porém, dependente da implementação de um conjunto de medidas de política pública que potenciem a iniciativa privada através da redução das incertezas associadas a estas novas tecnologias e da coordenação dos agentes económicos.

Inteli – Inteligência em Inovação
A microgeração é a geração de electricidade ou calor em pequena escala, em geral associada a tecnologias renováveis (solar térmica, eólica, fotovoltaica, mini-hídrica…), o que implica menor emissão de gases com efeitos de estufa e maior independência energética. Permite que as empresas e as famílias satisfaçam total ou parcialmente as suas necessidades de consumo de energia e vendam os excedentes à rede eléctrica, o que se traduz numa redução das perdas associadas à distribuição e evita novos investimentos em grandes centrais de produção e em infra-estruturas de distribuição.

2 thoughts on “Microgeração e ondas valem quase três “Autoeuropas””

  1. Na realidade este facto parece-me estranho, talvez por falta de hábito. A mim, sem querer ser do contra ou conservador, parece-me que vir um artigo CC, num jornal pago, para gerar lucro, acaba por ser contraditório. Claro que tenho noção que o uso típico CC, nomeadamente o comercial, acaba quando o autor assim o desejar; ainda assim acho esquisito.

  2. A licença que eles disponibilizam é explicita ao indicar que se pode partilhar o conteúdo da noticia desde que não seja com fins comerciais. Assim, “nós” bloggers não incorremos em processos ao copiar e colar a noticia.

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